Desenvolvimento Pessoal

Desenvolvimento Pessoal com PNL e Liderança

Quando o dono pede que os funcionários ajam como donos

Quando o dono pede que os funcionários ajam como donos

Em praticamente toda roda de empresários surge a mesma reclamação:
“Meu time não tem brilho no olho”,
“As pessoas não se comprometem”,
“Ninguém age como dono”.

A queixa é recorrente, mas raramente vem acompanhada de uma análise honesta do contexto criado pela própria empresa. O problema, na maioria dos casos, não está na falta de caráter, ambição ou responsabilidade dos funcionários. Está na contradição estrutural entre o que se exige e o que se oferece.

Este texto não pretende motivar. Pretende esclarecer.


O problema central

Muitos empresários desejam colaboradores que:

    • assumam responsabilidades amplas
    • cuidem do negócio como se fosse deles
    • tomem iniciativas
    • “vistam a camisa”
    • entreguem além do básico

Ao mesmo tempo, oferecem:

    • baixa autonomia
    • decisões centralizadas
    • pouca ou nenhuma transparência
    • remuneração fixa sem vínculo com resultados
    • risco zero compartilhado

O resultado é previsível: desalinhamento de expectativas.


Por que tantos empresários reclamam da falta de “brilho no olho”?

Porque confundem engajamento com subordinação emocional.

O chamado “brilho no olho” não surge por discurso inspirador, frases na parede ou cobrança emocional. Ele surge quando o ambiente permite que a pessoa se sinta parte real daquilo que constrói.

Quando isso não acontece, o comportamento padrão do profissional é racional: ele entrega exatamente aquilo que foi combinado.

Nem mais, nem menos.


Ser dono e ser funcionário não são a mesma coisa

Existe uma diferença objetiva - e inegociável - entre essas posições.

O dono:

    • assume risco financeiro
    • toma decisões estratégicas
    • responde pelo fracasso
    • participa diretamente dos ganhos

O funcionário:

    • executa dentro de um escopo definido
    • não assume risco patrimonial
    • responde a decisões tomadas por outros
    • recebe remuneração previamente acordada

Pedir postura de dono sem oferecer risco, decisão e retorno não é liderança. É confusão de papéis.


Propriedade Psicológica no ambiente de trabalho

Na Psicologia Organizacional, existe um conceito-chave para entender esse fenômeno: Propriedade Psicológica.

De forma simples, pessoas tendem a cuidar, proteger e se comprometer com aquilo que sentem que é “delas”. Esse sentimento não surge por decreto. Ele se constrói quando três elementos estão presentes.

1. Autonomia real (controle)

Não se trata de liberdade ilusória.

Autonomia real significa:

    • poder decidir dentro de limites claros
    • não ser constantemente microgerenciado
    • ter espaço para ajustar processos e soluções

Ambientes excessivamente controladores matam qualquer senso de dono.


2. Conhecimento e transparência

As pessoas só se responsabilizam por aquilo que compreendem.

Transparência inclui:

    • números básicos do negócio
    • metas reais
    • desafios concretos
    • contexto das decisões

Quando o colaborador executa sem entender o “porquê”, ele opera no modo tarefa, não no modo responsabilidade.


3. Retorno proporcional

Talvez o ponto mais ignorado.

Exigir esforço extra, zelo extremo e disponibilidade emocional sem contrapartida relevante gera cinismo, não comprometimento.

Retorno pode ser:

    • financeiro (PLR, bônus, participação)
    • simbólico (reconhecimento real, crescimento, influência)

O que não funciona é exigir sacrifício com promessa vaga de “crescimento futuro”.


O erro mais comum das empresas

O erro não é querer engajamento.
O erro é querer comportamento de sócio em um contrato de funcionário.

Isso não é cultura organizacional.
É desalinhamento estrutural.

Empresas maduras não pedem paixão. Elas constroem acordos claros.


O que realmente gera atitude de dono

A chamada “postura de dono” não se cobra. Ela emerge quando o sistema permite.

Algumas práticas objetivas:

Participação nos Lucros (PLR) bem estruturada

    • regras claras
    • métricas alcançáveis
    • pagamento previsível

Programas de incentivo coerentes

    • ligados a resultados reais
    • compreensíveis para todos
    • sem subjetividade excessiva

Autonomia bem definida

    • clareza de até onde a pessoa pode decidir
    • confiança operacional

Comunicação transparente

    • menos discurso
    • mais dados
    • menos mistério

Liderança técnica e respeito profissional

    • cobrança justa
    • feedback direto
    • reconhecimento proporcional

Conclusão: maturidade organizacional

Nem todo colaborador precisa agir como dono.
Mas todo líder precisa agir com coerência.

Bons profissionais não precisam ser emocionalmente pressionados. Eles entregam o que foi combinado quando o acordo é justo, claro e respeitado.

Atitude de dono não se exige.
Se constrói.

E toda construção começa com alinhamento entre expectativa, autonomia e recompensa.

Empresas maduras entendem isso.
As demais continuam reclamando de brilho no olho - enquanto apagam, todos os dias, as condições que poderiam acendê-lo.