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Domingos Nunes
- 05/01/2026
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Quando o dono pede que os funcionários ajam como donos
Em praticamente toda roda de empresários surge a mesma reclamação:
“Meu time não tem brilho no olho”,
“As pessoas não se comprometem”,
“Ninguém age como dono”.
A queixa é recorrente, mas raramente vem acompanhada de uma análise honesta do contexto criado pela própria empresa. O problema, na maioria dos casos, não está na falta de caráter, ambição ou responsabilidade dos funcionários. Está na contradição estrutural entre o que se exige e o que se oferece.
Este texto não pretende motivar. Pretende esclarecer.
O problema central
Muitos empresários desejam colaboradores que:
- assumam responsabilidades amplas
- cuidem do negócio como se fosse deles
- tomem iniciativas
- “vistam a camisa”
- entreguem além do básico
Ao mesmo tempo, oferecem:
- baixa autonomia
- decisões centralizadas
- pouca ou nenhuma transparência
- remuneração fixa sem vínculo com resultados
- risco zero compartilhado
O resultado é previsível: desalinhamento de expectativas.
Por que tantos empresários reclamam da falta de “brilho no olho”?
Porque confundem engajamento com subordinação emocional.
O chamado “brilho no olho” não surge por discurso inspirador, frases na parede ou cobrança emocional. Ele surge quando o ambiente permite que a pessoa se sinta parte real daquilo que constrói.
Quando isso não acontece, o comportamento padrão do profissional é racional: ele entrega exatamente aquilo que foi combinado.
Nem mais, nem menos.
Ser dono e ser funcionário não são a mesma coisa
Existe uma diferença objetiva - e inegociável - entre essas posições.
O dono:
- assume risco financeiro
- toma decisões estratégicas
- responde pelo fracasso
- participa diretamente dos ganhos
O funcionário:
- executa dentro de um escopo definido
- não assume risco patrimonial
- responde a decisões tomadas por outros
- recebe remuneração previamente acordada
Pedir postura de dono sem oferecer risco, decisão e retorno não é liderança. É confusão de papéis.
Propriedade Psicológica no ambiente de trabalho
Na Psicologia Organizacional, existe um conceito-chave para entender esse fenômeno: Propriedade Psicológica.
De forma simples, pessoas tendem a cuidar, proteger e se comprometer com aquilo que sentem que é “delas”. Esse sentimento não surge por decreto. Ele se constrói quando três elementos estão presentes.
1. Autonomia real (controle)
Não se trata de liberdade ilusória.
Autonomia real significa:
- poder decidir dentro de limites claros
- não ser constantemente microgerenciado
- ter espaço para ajustar processos e soluções
Ambientes excessivamente controladores matam qualquer senso de dono.
2. Conhecimento e transparência
As pessoas só se responsabilizam por aquilo que compreendem.
Transparência inclui:
- números básicos do negócio
- metas reais
- desafios concretos
- contexto das decisões
Quando o colaborador executa sem entender o “porquê”, ele opera no modo tarefa, não no modo responsabilidade.
3. Retorno proporcional
Talvez o ponto mais ignorado.
Exigir esforço extra, zelo extremo e disponibilidade emocional sem contrapartida relevante gera cinismo, não comprometimento.
Retorno pode ser:
- financeiro (PLR, bônus, participação)
- simbólico (reconhecimento real, crescimento, influência)
O que não funciona é exigir sacrifício com promessa vaga de “crescimento futuro”.
O erro mais comum das empresas
O erro não é querer engajamento.
O erro é querer comportamento de sócio em um contrato de funcionário.
Isso não é cultura organizacional.
É desalinhamento estrutural.
Empresas maduras não pedem paixão. Elas constroem acordos claros.
O que realmente gera atitude de dono
A chamada “postura de dono” não se cobra. Ela emerge quando o sistema permite.
Algumas práticas objetivas:
Participação nos Lucros (PLR) bem estruturada
- regras claras
- métricas alcançáveis
- pagamento previsível
Programas de incentivo coerentes
- ligados a resultados reais
- compreensíveis para todos
- sem subjetividade excessiva
Autonomia bem definida
- clareza de até onde a pessoa pode decidir
- confiança operacional
Comunicação transparente
- menos discurso
- mais dados
- menos mistério
Liderança técnica e respeito profissional
- cobrança justa
- feedback direto
- reconhecimento proporcional
Conclusão: maturidade organizacional
Nem todo colaborador precisa agir como dono.
Mas todo líder precisa agir com coerência.
Bons profissionais não precisam ser emocionalmente pressionados. Eles entregam o que foi combinado quando o acordo é justo, claro e respeitado.
Atitude de dono não se exige.
Se constrói.
E toda construção começa com alinhamento entre expectativa, autonomia e recompensa.
Empresas maduras entendem isso.
As demais continuam reclamando de brilho no olho - enquanto apagam, todos os dias, as condições que poderiam acendê-lo.